Já há muito tempo a expressão “voto útil” deixou de ser associada apenas à postura de parte da população que tenderia a votar em quem lidera as pesquisas para não “perder” ou “desperdiçar” o voto. Agora, o voto útil descreve também qualquer outra postura que signifique não votar guiado única e exclusivamente por convicção: por exemplo, fazendo uma escolha para impedir a vitória de certo candidato, partido ou ideologia que o eleitor repudie profundamente – o que costuma ocorrer no segundo turno de uma eleição majoritária, quando eleitores dos candidatos derrotados podem se ver diante de uma opção pelo que consideram o “mal menor”.

O voto útil, no entanto, está se revelando estratégia importante já no primeiro turno desta eleição presidencial, especialmente com a ascensão, nas pesquisas de intenção de voto, de Fernando Haddad, o preposto do ex-presidente e atual presidiário Lula. A possibilidade de que o PT chegue ao segundo turno e acabe vencendo a disputa tem levado a militância de Jair Bolsonaro a recorrer aos eleitores que preferem outros candidatos, mas que também têm profunda aversão ao petismo. Segundo esse raciocínio, seria melhor abandonar candidatos sem chance e exercer o voto útil no candidato do PSL com o objetivo de “liquidar a fatura” já no primeiro turno e acabar de vez com a chance de um retorno do projeto de poder petista, com a agravante de que o país passaria a ser comandado de dentro de uma cela.

O fato de Bolsonaro também subir nas pesquisas recentes, embora em ritmo menor que Haddad, pode significar que essa estratégia está funcionando, apesar de outra campanha de voto útil estar sendo empregada contra o próprio candidato. O “ele não” que aparece nas mídias sociais pode ser definido como “qualquer um, menos Bolsonaro”: a prioridade seria não tanto eleger determinado candidato, mas impedir que o deputado do PSL vá ao segundo turno, com seu projeto visto como autoritário e preconceituoso – com esse objetivo alcançado, que cada um possa votar segundo sua consciência em algum dos dois postulantes que sobrarem (ou em nenhum deles).

Por fim, os que abominam tanto a esquerda (o que também incluiria Ciro Gomes, do PDT, nessa dinâmica de rejeição) quanto o bolsonarismo ainda alimentam esperanças de que um candidato mais ao centro do espectro político – Alvaro Dias, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, João Amoêdo ou Marina Silva – consiga emergir a ponto de ter chances de segundo turno e reunir já no dia 7 as preferências de todo esse eleitorado, tirando da disputa um dos dois extremos. É o que pediu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em carta divulgada na quinta-feira, sem mencionar nenhum candidato específico que seria esse “aglutinador”. A dificuldade dessa estratégia está no fato de que, no momento, nenhum dos centristas pretende abrir mão da disputa. Além disso, se Haddad e Bolsonaro continuarem em ascensão, a mera união dos eleitores do centro já não bastaria para conduzir seu escolhido ao segundo turno – seria necessário tirar votos dos extremos, onde o eleitorado tem se mostrado mais fiel.

É fácil demonizar o voto útil, e isso tem sido feito neste primeiro turno, em que, argumenta-se, todo eleitor deveria votar naquele que efetivamente considera o mais capacitado para governar o Brasil, analisando planos de governo, sem se deixar levar por considerações de estratégia eleitoral ou rejeição, comportamento que ficaria reservado ao segundo turno. Mas até que ponto esse tipo de raciocínio não esconde uma vontade de estabelecer uma “maneira certa” e uma “maneira errada” de votar, um “elitismo eleitoral”?

Uma das riquezas da democracia está no fato de o cidadão poder ir à cabine e votar “sem medo, sem nenhuma forma de intimidação ou vitimização. Ele marca sua escolha na cédula em total segredo”, nas palavras de Winston Churchill. E isso significa que o guia supremo na hora do voto é a consciência do eleitor. Quando, anos atrás, surgiu uma proposta descabida segundo a qual beneficiários do Bolsa Família não deveriam ter direito ao voto, lembramos, neste espaço, que cada um leva para a urna suas convicções, mas também suas circunstâncias, suas gratidões, suas lealdades – e, podemos acrescentar, suas preocupações e suas antipatias.

E um voto guiado por gratidão ou preocupação não vale menos que um voto guiado por convicção pura – nem numericamente, nem moralmente. O voto útil também reflete uma visão sobre o que seria melhor para o país, ainda que seja pela via da exclusão, manifestando, neste caso, que o ideal para o Brasil seria não ter determinado candidato ou partido no Planalto, e que isso seria até mais importante que o nome do vencedor. Se um eleitor julga, em sua consciência, que a rejeição a determinado projeto justifica um voto que não seja no candidato de sua genuína preferência, não pode ser condenado por isso. (Gazeta do Povo)

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