O manual da política nacional ensina que, para ganhar uma eleição majoritária, é preciso pertencer a um partido com alta capilaridade, montar uma ampla aliança, cercar-se de estrategistas experientes, obter o maior tempo possível de televisão no horário eleitoral gratuito, manter os cofres abarrotados de dinheiro, escolher um vice que agregue votos, fazer acenos insistentes ao eleitor moderado, conquistar o apoio de caciques estaduais para ter palanques por todo o território nacional, envernizar o vocabulário e formular propostas que, testadas em pesquisas de opinião, se mostrem capazes de atrair o grosso do eleitorado. Jair Bolsonaro não seguiu nenhuma dessas recomendações. Há quatro anos, desde o instante em que decidiu dispu­tar a Presidência da República, ele até tentou seguir as práticas tradicionais, mas não conseguiu o que pretendia. Fez tudo exatamente ao contrário.

Em junho de 2014, Bolsonaro pertencia ao PP, um partido fisiológico com uma bancada de quarenta deputados adestrada para apoiar qualquer um com chance de vencer. Na época, a presidente Dilma Rousseff, apesar dos atropelos de seu governo, era franca favorita à reeleição. O tucano Aécio Neves, seu adversário, não empolgava os eleitores, mas a Lava-Jato já havia farejado as primeiras pistas do que resultaria na maior investigação de corrupção da história do país. PP e PT estavam irmanados, até o fundo do poço, no escândalo. Bolsonaro, em vez de mudar de partido devido à lama em que se afogara, preferiu apresentar-se ao PP como uma opção presidencial. Ciente de que não tinha possibilidade de vencer, ponderou: “No mínimo, vamos garantir que haja um segundo turno contra o atual candidato do governo”. Ninguém lhe deu bola. No dia da convenção do partido, ele fez um último apelo a favor de sua estratégia, bem ao seu estilo: “Ou o PP sai da latrina ou afunda nela de vez”. O PP, como se sabe, afundou de vez.   

Sem alternativa, Bolsonaro se reelegeu como o deputado mais votado do Rio de Janeiro. A pregação antipetista lhe rendeu 464000 votos. Na reabertura dos trabalhos da Câmara, em fevereiro de 2015, confidenciou ao deputado Carlos Manato (SD-ES), um de seus raros interlocutores no Congresso: “Esta foi minha última campanha para deputado. Vou sair para presidente em 2018”. Manato — hoje no PSL — apenas acenou com a cabeça. Examinada com os olhos de hoje, a maré era real­men­te favorável. O governo Dilma começava a se desintegrar, o país saía às ruas em manifestações contrárias ao PT e aos políticos de modo geral. As redes sociais, em especial o Facebook, estavam ganhando espaço como ferramenta de propaganda política.

Foi nesse ambiente que simpatizantes do deputado tomaram a iniciativa de criar a página de humor Bolsonaro Zuero, que não demorou a virar um sucesso, atraindo milhões de internautas. A página difundia piadas, memes e vídeos sobre a opinião do parlamentar a respeito de assuntos polêmicos. As postagens, algumas de mau gosto, chocavam os adversários e divertiam os apoiadores, mas em ambos os casos popularizavam o nome do deputado em setores da sociedade que antes nem sequer sabiam de sua existência.

Um dos vídeos mais populares dessa época mostra o deputado falando sobre uma chacina de presos que havia ocorrido numa penitenciária no Maranhão. Entidades de direitos humanos do mundo inteiro criticavam o sistema carcerário brasileiro, conhecido internacionalmente como um dos mais repulsivos. “A única coisa boa do Maranhão é o presídio de Pedrinhas. É só você não estuprar, não sequestrar, não praticar latrocínio que você não vai para lá”, disse Bolsonaro, emendando um palavrão. Depois disso, as buscas na internet pelo seu nome começaram a crescer. Aos poucos, o deputado foi percebendo o enorme potencial das redes sociais. Praticamente anônimo, a cada frase chocante, inusitada ou abertamente provocativa, ele virava assunto obrigatório. E os disparos passaram a ficar cada vez mais frequentes. Saíram de sua usina frases como:

  • “Se um dia eu tiver o poder, não vai ter um centavo para ONG, um centavo para qualquer órgão relacionado a direitos humanos”.
  • “Sabe qual o nome do psiquiatra que o Jair Bolsonaro recomenda para esse cara (falando de um pedófilo num caso hipotético)? Doutor Peixeira”.
  • “Eu tenho uma filha de 5 anos de idade. Não mostre isso (refere-se ao que inventou de chamar de ‘kit gay’) para ela que eu arrebento na porrada!”.
  • “Eu queria que matassem 200000 vagabundos.
  • “Estou preocupado é com os inocentes que morrem, não com os marginais”.
  • “Violência se combate com violência, e ponto-final. Chega de mariquice”.

 Cada comentário, cada discurso que embutia uma ideia polêmica ou preconceituosa corria a internet, gerando milhares de comentários contra ou a favor e reforçando certa imagem de deputado folclórico. Mas o fato é que, ali, o candidato descobrira a fórmula que, anos mais tarde, impulsionaria sua ascensão ao posto mais alto da República.

Em 2016, Bolsonaro, que trocara o PP pelo PSC depois da eleição, começou a procurar um partido que lhe oferecesse garantias de uma futura candidatura à Presidência. Foi uma empreitada difícil. O PSC não lhe deu o espaço almejado. O Partido Ecológico Nacional (PEN) abriu-­lhe as portas, mas havia dois problemas. O primeiro: como as incansáveis críticas do candidato à política de meio ambiente não se conjugavam com o nome do partido, era preciso tomar uma providência. O PEN, então, mudou sua certidão de nascimento — virou Patriota — e reformulou o estatuto para acolher o deputado. Apareceu, então, outro problema: Bolsonaro descobriu, em agosto de 2017, que o PEN havia patrocinado uma ação no Supremo Tribunal Federal questionando a prisão de condenados em segunda instância, tema que interessava sobretudo aos petistas e particularmente ao ex-presidente Lula. Ele avaliou que a ação feria de morte seu discurso antipetista e também que o partido estava a serviço de interesses ocultos. A filiação ao PSL, a legenda nanica que topou abrigá-lo, só ocorreu em março deste ano.

 Antes disso, e já de posse de levantamentos que indicavam uma boa viabilidade eleitoral, o deputado passou a moldar a imagem do candidato. O estatista começou a dar lugar a um defensor da liberdade de mercado, ainda que essa trajetória nunca tenha sido linear. Havia oca­siões em que Bolsonaro defendia pontos de vista ultraliberais para, no instante seguinte, voltar atrás com argumentos ultraestatistas — como o velho conceito de “estatais estratégicas”. Em parte, sua transmutação econômica foi obra da procuradora aposentada Bia Kicis, recém-­eleita deputada, e do empresário Winston Ling, um pregador liberal e filho de imigrantes chineses.

Dois anos antes da eleição, Bia procurou Ling para pedir ajuda. “Ele já tem o voto dos conservadores. Agora, precisa dos liberais”, disse ela. O empresário e o candidato se encontraram. Ling presenteou Bolsonaro com dois livros do catecismo liberal: As Seis Lições, de Ludwig von Mises, e A Lei, de Frederic Bastiat. Foi o início de uma conversão, ainda que vacilante. Na etapa seguinte, que também teve impacto sobre o ideário de Bolsonaro, houve uma reunião com o economista Paulo Guedes, defensor incondicional do liberalismo que foi anunciado como futuro ministro da Fazenda.

 O candidato e o economista se viram pela primeira vez na manhã de 13 de novembro de 2017, numa sala reservada do hotel Sheraton, na Barra da Tijuca. Foi uma conversa definitiva para o sucesso da candidatura de Bolsonaro. Guedes apresentou seu currículo, falou de suas ideias para o Brasil e disse que não colaborara com nenhum governo até então porque não tivera carta branca para implementar suas propostas. Bolsonaro entendeu o recado, gostou do que ouviu e marcou uma segunda reunião para dali a alguns dias. Selada a parceria, o candidato revelou o “namoro” com Gue­des em uma entrevista ao Amarelas ao Vivo, evento organizado por VEJA, em 27 de novembro de 2017. A Bolsa de Valores de São Paulo, que estava em queda naquele dia, passou a subir. O teste fora bem-sucedido. Ling, que intermediou o encontro entre Bolsonaro e Guedes, já havia feito doze convites semelhantes a economistas e empresários de primeiro nível. Ninguém aceitou conversar com o potencial candidato. “Ninguém queria se envolver. Todos estavam com medo”, lembra Ling.

A pré-campanha foi repleta de demonstrações de amadorismo e improvisos que se repetiriam mais à frente. A escolha do vice-presidente é um exemplo lapidar. O preferido de Bolsonaro era o senador Magno Malta (PR-­ES). Além de ser um nome influente no meio evangélico, o parlamentar serviria para atrair um partido com uma bancada considerável e, portanto, com preciosos segundos de tempo de televisão no horário eleitoral gratuito. Malta, no entanto, refugou: optou pela reeleição ao Senado, que considerava uma aposta mais segura do que a vitória de Bolsonaro (errou feio: Bolsonaro ganhou e ele, Malta, não conseguiu se reeleger).

A segunda opção para vice foi o general Augusto Heleno, que comandou as tropas de paz no Haiti. Heleno aceitou publicamente o convite, mas seu partido, o PRP, não. Bolsonaro ainda ouviu uma terceira resposta negativa, desta vez da advogada Janaína Paschoal — até que, perto do prazo final para a escolha de um vice, achou outro nome que parecia ideal: Luiz Philippe de Orleans e Bragança, trineto da princesa Isabel e tetraneto de dom Pedro II. Com esse pedigree, o príncipe Orleans e Bragança daria um verniz de tradição e de moderação à chapa. Faltando algumas horas para o registro da candidatura, porém, nova reviravolta. Bolsonaro recebeu a informação de que o príncipe fora filmado cometendo uma agressão física contra um morador de rua — história nunca confirmada, mas que deu origem a várias teorias conspiratórias, principalmente depois que o general Hamilton Mourão foi convidado e aceitou de pronto substituí-lo na chapa.

Bolsonaro começou a campanha liderando as pesquisas, ou atrás apenas do ex-presidente Lula, cuja candidatura nunca passou de uma quimera. Havia um consenso de que ele atingira o ápice de sua popularidade e, segundo os especialistas, a tendência natural era que seu nome entrasse num processo de desidratação. Talvez fosse verdade, mas Adélio Bispo de Oliveira mudou essa escrita ao lhe cravar uma faca no abdômen durante um ato de campanha em Juiz de Fora. A lesão por pouco não foi fatal. Depois disso, Bolsonaro não parou mais de subir nas pesquisas até a votação do primeiro turno, quando obteve 46% dos votos válidos. No segundo turno, debilitado depois de duas cirurgias, permaneceu recluso no condomínio onde mora, no Rio de Janeiro, mas continuou subindo nas pesquisas. Mesmo liberado pelos médicos na última semana para comparecer aos debates, preferiu esquivar-se das sabatinas. Os adversários o acusaram de fascista, misógino e homofóbico. Jair Bolsonaro venceu a eleição mais curiosa de todos os tempos entrincheirado em casa, com uma bolsa de colostomia presa ao corpo, defendendo-se e atacando por meio das redes sociais. Assim, construiu a vitória mais improvável da história democrática do Brasil. E reescreveu o manual da política. (Veja)

 

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