A história mal contada do affair conjugal do candidato Jair Bolsonaro (PSL) e sua ex-mulher – em reportagem inicial da Folha de S. Paulo – é lastimável sob inúmeros aspectos, nesta altura do campeonato. Traz de volta, infelizmente, para os debates da campanha presidencial, episódio típico do jornalismo perverso e malicioso (para dizer o mínimo) e conduz o embate político para o terreno baldio dos escândalos de família e das fofocas. Abrindo espaços – nos jornais, noticiários da TV e discussões nas redes sociais – que deveriam ser preenchidos por propostas programáticas de alternativas de saídas para a preocupante crise moral, política, social e econômica em que o país afunda.

Em lugar disso, mais nitroglicerina pura é distribuída, com fartura, para os contendores e seus adeptos já ensandecidos. A impressão é de que nada valeram as lições desastradas de campanhas presidenciais mais recentes, ou mais remotas. Persiste a rançosa tentação (cultural?) da política de ponta de rua e dos golpes desferidos abaixo da linha da cintura de velhas campanhas.

Na hora H, da primeira volta das presidenciais, a imprensa e o debate político parecem ceder à tentação do submundo das querelas de casais, envolvendo ex-esposas e filhos. Na verdade, a exemplo do saudoso compositor e cantor Belchior, “estes casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem”. Mas sei que, em geral, em tempos de política misturada com jogo eleitoral e disputas de poder, quase sempre terminam mal.

O caso da “denúncia” de tentativa de agressão do candidato do PSL – à frente em todas as pesquisas de primeiro turno -, à sua ex-mulher, durante litígio pela guarda do filho do casal, é constrangedor. Mal (ou bem?) comparando, tem características simbólicas de uma segunda facada em Bolsonaro. Esfaqueado no estômago, durante ato de campanha em Juiz de Fora. Desta vez, um golpe pelas costas.

Não é preciso puxar pela memória para encontrar semelhanças – sob o ponto de vista da ética na política e do papel da imprensa – deste triste episódio envolvendo o candidato, sua ex-esposa e filho, com o caso, no final da campanha presidencial Collor x Lula, em novembro de 1989, quando o atual senador alagoano – com ajuda ativa ou complacente de setores relevantes da mídia – jogou o então líder sindical, fundador do PT, sua ex-mulher e sua até então desconhecida filha Lurian no olho do furacão das discussões no país. Triste episódio para a política e para a imprensa.

Poderia citar fatos semelhantes, na atual e em campanhas passadas. Prefiro parar nesses dois exemplos emblematicamente cavernosos.. Acrescento apenas: Maria Cristina Valle, ex-mulher de Bolsonaro, nega indignada que tenha sofrido agressões do marido, como publicado e diz não fazer ideia “de como surgiu essa história” do documento do Itamaraty, segundo o qual teria relatado ameaças do ex-marido. “Numa separação sempre há tensões, mas jamais falei aquilo. O papel do Itamaraty é outro ponto nebuloso desta história, a ser esclarecido.

No mais,reafirmo: esse tipo de política rasteira e de jornalismo cinzento, de fontes obscuras, é o pior caminho que se poderia imaginar para a campanha presidencial, a caminho das urnas eletrônicas, em 7 de outubro. Prejudica a todos e, mais uma vez, fere a política, a inteligência e a verdade. Ou não?

(Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta)

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