Na reta final, o diabo se materializou no WhatsApp, que, de acordo com o candidato petista, Fernando Haddad, teria influenciado definitivamente o resultado do primeiro turno.

Reportagem publicada na Folha de S. Paulo denunciando o uso indevido da rede pelo candidato do PSL alimentou a artilharia, com mais mentiras e tiros à culatra pelos dois lados. Bolsonaro e o seus atacaram com violência a autora Patrícia Campos Mello e o jornal, e Haddad viu na matéria a salvação contra a sua derrota anunciada.

Na Justiça, apoiadores de Bolsonaro exigem provas que os comprometam. Haddad foi mais além: pediu a prisão preventiva e a cassação do adversário. Nas redes, acusa Bolsonaro de fraudar as eleições com uma usina de mentiras financiadas por caixa dois.

Caixa dois é inadmissível. Mas é curioso ver o PT denunciar como gravíssimo algo que durante o julgamento do mensalão considerava pecado menor. Repete a tática de que um crime é fatal quando cometido pelo outro e banal nas vezes em que os seus estão na berlinda.

Fora a hipótese de que empresários pró-Bolsonaro financiaram disparo massivo de mensagens, o que é proibido pela legislação que impede a participação privada nas campanhas e, portanto, tem de ser investigada, esmiuçada e punida caso se confirme, o resto é mesmo chororô de perdedor.

Mesmo que a turma bolsonarista tenha espalhado boatos mais absurdos e em maior número, a do PT, como de costume, mentiu também. E não há lei que puna aquele que enganou mais ou menos o eleitor. Diga-se, não há lei que impeça o estelionato eleitoral, muito menos o engodo nas campanhas.

Nesse quesito, aliás, o ex-capitão é principiante perto do que o PT aprontou em campanhas anteriores e durante seus governos. As cenas de 2014, da comida sumindo dos pratos dos pobres para associar Marina Silva aos banqueiros, tornou-se um ícone da mentira eleitoral, em uma campanha que Dilma Rousseff pintou de ouro um país já mergulhado na lama.

Pela primeira vez sem dominar as redes onde já imperou absoluto, o PT, na voz de sua presidente Gleisi Hoffmann, fez a única autocrítica que o partido se permitiu até hoje: “nosso erro foi ter subestimado o WhatsApp”.

Possivelmente subestimou, sim. Mas cabresto digital só existe na cabeça de quem desconfia da capacidade dos votantes. Atribuir ao WhatsApp o resultado da eleição é, antes de tudo, um desrespeito ao eleitor. É tê-lo como idiota, incapaz de fazer suas escolhas.

 

(Mary Zaidan é jornalista)

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