Em um cenário de grande polarização política, a cantora Anitta recebeu nesta semana uma enxurrada de críticas nas redes sociais de pessoas cobrando o seu posicionamento político, mesmo sem ter apoiado publicamente algum candidato.

As críticas começaram nesta quarta-feira (19), quando Anitta passou a seguir no Instagram a influenciadora digital Flávia Perez, que faz campanha para o candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Uma parcela do público da cantora, formado em grande parte pela comunidade LGBT, cobrou uma posição de Anitta em relação às eleições, e a criticou por ter seguido uma apoiadora de Bolsonaro. 

Anitta se defendeu em postagens nas suas redes sociais, e pediu respeito à sua decisão de não declarar em quem vai votar: 

“É um direito meu não querer opinar sobre política e eu só estou exercendo esse direito”, disse a cantora no seu Twitter. 

Anitta não foi a única. O jogador de futebol Lucas Moura, atualmente no Tottenham, da Inglaterra, declarou o seu voto em Bolsonaro e recebeu reclamações dos seguidores. Felipe Melo, jogador do Palmeiras, declarou seu apoio a Bolsonaro em entrevista ao vivo no gramado após uma partida, desencadeando uma série de críticas e também elogios. Também as posições de jogadores da seleção masculina de vôlei causaram reações negativas. Após uma partida contra a França, a Confederação Brasileira de Vôlei postou uma foto em seu Instagram em que dois atletas parecem fazer uma manifestação de apoio a Bolsonaro. Após repercussão negativa, a CBV apagou a postagem. 

A patrulha vale para os dois lados. Sasha Meneghel, filha da apresentadora Xuxa, publicou em seu Instagram conteúdo contrário ao candidato Bolsonaro e também sofreu ataques de internautas. 

O ator Wagner Moura, que costuma se posicionar publicamente sobre diversas questões, e nesta eleição está ao lado do candidato Guilherme Boulos (PSOL), já reclamou da patrulha ideológica da esquerda. Em entrevista ao apresentador Pedro Bial, em julho de 2017, o ator disse que não acredita que os artistas devam ser cobrados a dar sua opinião. “Acho que existe uma cobrança muito grande. A polarização traz tudo o que existe de ruim, tanto na direita quanto na esquerda”, disse Moura, e completou: “Na esquerda, o que tem de muito ruim é o negócio da patrulha ideológica, querer que as pessoas se posicionem, falem. E tem gente que não está a fim, que não está preparada para se posicionar, que não sabe muito bem o que dizer”. 

A expressão “patrulha ideológica” começou a circular no Brasil na década de 1970, durante a ditadura militar, para descrever o grupo de pessoas unidas por uma ideologia comum que atuam como vigilantes das opiniões alheias, denegrindo quem não é alinhado e querendo impor os seus ideais aos outros. O termo foi criado pelo cineasta Cacá Diegues, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, em 1978, em que falou sobre as críticas que recebeu sobre os seus filmes “Chuvas de Verão” e “Xica da Silva” – como a de que seria uma comédia erótica sem riqueza política-ideológica. 

Nelson Rodrigues escreveu em uma de suas crônicas, retratando fielmente o espírito daquele tempo: “Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas”. O próprio Nelson Rodrigues foi apoiador da ditadura militar, até o seu filho ser preso e torturado pelo regime. Assim, era alvo da esquerda, pelo apoio declarado da ditadura, e da direita, na área dos costumes. 

Sobrou também para Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros autores de músicas menos engajadas. Em contraponto à patrulha ideológica, o cartunista Henfil criou a expressão “patrulha Odara”, inspirado no título de uma canção de Caetano. Ele mesmo explicou o termo em entrevista a Geneton Moraes Neto em 1983. “Como foram todos criticados, resolveram reagir. Disseram que era ‘patrulhamento ideológico’. Eu é que inventei que eles, os baianos, eram a Patrulha Odara, porque queriam patrulhar a crítica que se fazia”, contou Henfil. 

Naquela época, os artistas eram cobrados para se posicionar contra o regime militar. Havia repressão à liberdade de pensamento e isso afetava diretamente a classe artística. Mas, nesse período atual de democracia e garantia de liberdade de expressão, ainda deveria haver lugar para o patrulhamento ideológico? Com a mesma facilidade que alguém pode se posicionar nas redes sociais, outros podem atacar quem não segue a sua cartilha ou os que não tomam um lado.E a polarização de opiniões acontece nas redes sociais, deixando pouco espaço para a área cinzenta do debate e intimidando quem pensa diferente. 

Os patrulheiros morais também podem ser encontrados na direita, apontou Thiago Kistenmacher, em texto publicado no blog do Rodrigo Constantino na Gazeta do Povo, em julho de 2017. 

O colunista diz que existem agentes da patrulha moralista também no lado direito do espectro político. 

“Um agente da patrulha moralista não aceita que um liberal possa defender o casamento gay ao mesmo tempo em que é contra o aborto; não consegue conceber um liberal ateu que compreende o valor da tradição cristã. […] O conservador não pode divergir de outros conservadores, senão o selo de conservador não lhe serve mais. Mas vamos lembrar que quem tem rótulo é garrafa e quem cabe em caixa são sapato e encomenda dos correios.” 

Alguns casos saem das redes sociais e vão para as ruas, como quando o compositor Chico Buarque foi hostilizado em uma esquina do Leblon, na zona sul carioca, por pessoas que ironizaram o fato de Chico ser petista e ter um apartamento em Paris. Ou quando o humorista Gregório Duvivier almoçava em um restaurante, também no Leblon, e foi abordado por um homem que disse que Duvivier era da “esquerda caviar” e que devia “almoçar em um bandejão, já que gosta tanto de pobre”.

O patrulhamento ideológico de qualquer lado prejudica a liberdade de expressão, que inclui também o direito individual de não se expressar.”

(Gazeta do Povo)

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