Apesar da distância geográfica, os estados do Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Paraná têm em comum a presença de algumas das mais importantes – e perigosas – fronteiras do Brasil. Agora, nesses mesmos confins, surge uma nova semelhança.

Do ponto geográfico mais extremo de Norte a Sul do Brasil, o Monte Caburaí,em Roraima, ao Chuí, no Rio Grande do Sul (esqueça o Oiapoque, o monte é mais longe), o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) está na ponta nas pesquisas do Ibope nesses estados. 

Mesmo antes do atentado à vida do presidenciável, inclusive nos cenários com Lula, em agosto, ele liderava as pesquisas no Acre e Roraima e empatava na liderança em Rondônia. Estado a estado, as explicações para a preferência pelo candidato do PSL têm semelhanças e diferenças. 

“O discurso da fragilidade da fronteira [com a Bolívia e com o Peru] é usado para justificar a violência – e não é só no Acre, onde temos uma fronteira praticamente sem vigilância. Mas não justifica por si só. Tem a ver com população carcerária e crime organizado”, explica Nilson Euclides da Cunha, professor de Ciências Políticas da Universidade Federal do Acre (UFAC). 

Bolsonaro virou opção não apenas pela promessa de combate à violência e do porte de armas para a população: “Historicamente o PT nunca foi bem votado para a presidência aqui no Acre. O Lula perdeu para o Alckmin, a Dilma perdeu para Aécio”. 

Mesmo assim, desde 1998, o PT vence a disputa estadual. O governador atual é Tião Viana (PT) e um outro petista empata na liderança das intenções de voto. Só que no Acre a questão não é direita versus esquerda:é oligárquica. Há disputa entre famílias, explica o professor: “Os Viana nunca foram de esquerda. No histórico de formação política, as alianças vão de centro direita para a esquerda”. 

Roraima, Bolsonaro e a Venezuela

Se nem mesmo a acreana Marina Silva (Rede) consegue projeção em seu estado, quem dirá em outros. “É um discurso eticamente bacana, ambientalista, mas que nunca emplacou”, diz Nilson Cunha. E vai contra o agronegócio, o que também explica a influência do capitão da reserva em Roraima e Rondônia. 

Jair Bolsonaro encontra no agronegócio uma de suas principais bases eleitorais.

Sociedade e Fronteiras, do Centro de Ciências Políticas da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Birkner chegou neste início do ano no estado. “As pessoas me contam que o eleitorado é tradicionalmente conservador. Isso para mim está diretamente ligado ao agronegócio, ainda que [a capital] Boa Vista seja uma cidade com muitos funcionários públicos”, destaca. 

O PIB estadual é quase 50% composto pela administração pública e 7% pelo agronegócio, mostra o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depec). A madeira é o principal produto de exportação, mas ainda há uma forte participação de comércio e serviços. É aí que entra o fator Venezuela. A população enxerga uma ameaça ao trabalho e uma escalada da violência com o aumento da imigração. 

“Isso altera o cotidiano de várias maneiras. A simples postura do Bolsonaro indica posições mais duras e menos flexíveis a essa expectativa, com pulso firme para resolver esse problema de uma vez por todas”, deduz o professor, que indica ainda a forte presença de militares na região da fronteira, o que reforça o eleitorado do candidato do PSL. 

Onde índios e mestiços votam em Bolsonaro

Nos ‘dois Matos Grossos’ o agronegócio é o motor da economia. Contudo, no Mato Grosso do Sul ‘o buraco é mais embaixo’ quanto às fronteiras. Corumbá divide o país da Bolívia. Ponta Porã faz fronteira com o Paraguai. 

“A região do pantanal tem um perfil muito específico pela fronteira com a Bolívia. Lá é baixa a densidade demográfica, com influência da Marinha especificamente. Ali o perfil militar é outro e a forte influência do governador [Reinaldo Azambuja, do PSDB] pode até puxar o Alckmin. Mas quando falamos da fronteira paraguaia, com tráfico pesado de drogas, é um mundo novo que envolve várias pequenas cidades e fronteira seca”, avalia o cientista político Victor Garcia Miranda, professor adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. ” (Gazeta do Povo)

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