A volta do PT ao poder é uma perspectiva aterradora para uma parte considerável da opinião pública. Tão importante quanto a rejeição ao partido é a intensidade de preferências dos seus opositores. Assim, o cenário de um governo petista certamente produz importante comoção na sociedade. E, neste contexto, o movimento estratégico dos extremos é de apelo ao centro. Vários movimentos recentes de Haddad vão nessa direção. Mas “falar é barato”: a credibilidade das promessas é o que importa.
As condições para uma nova Carta aos Brasileiros são mínimas: as promessas que o candidato do PT poderá fazer não são críveis. Apresentando-se ao eleitorado como um candidato-substituto falta-lhe o pré-requisito essencial para qualquer barganha: a capacidade de garantir acordos. Há assim um conflito insolúvel entre a mensagem do conciliador e o que representa —e reafirma a todo momento: não é candidato de si mesmo.
A probabilidade de conflitos nas relações executivo-legislativo sob um novo contexto petista é alta, e isso é antecipado pelos atores. A base parlamentar será muito estreita: estimada em cerca de um sexto das cadeiras da Câmara dos Deputados. Essa constatação não é inédita sob o nosso presidencialismo multipartidário. Mais relevante é que o hiato de preferências entre o parlamentar mediano e o presidente petista se alargou consideravelmente e que muitas pontes com parceiros conservadores foram destruídas. Os incentivos para a cooperação com o Executivo no Congresso serão assim muito baixos. Essa incongruência poderá engendrar importante paralisia decisória em contexto em que há urgências na agenda pública.
A questão fiscal explosiva coloca um dilema que já está antecipado pelo mercado —afinal, os preços dos ativos não explodiram. Seu bom comportamento sugere que a aposta é que ou Haddad não será eleito ou praticará um forte estelionato eleitoral. A reedição de uma mudança radical de políticas produzirá forte comoção social e provavelmente fraturas internas profundas no campo do PT.
Na área institucional haverá forte potencial conflitivo entre instituições de controle latu senso (MPF, Cortes Superiores, Polícia Federal) e o Executivo. O STF jogará como ator de veto, em protagonismo exacerbado ainda não testado porque o jogo se dará com o Executivo e STF com preferências em conflito aberto.
Perplexa, a nação se pergunta o que romperá o equilíbrio hiperbólico atual.
Marcus André Melo/ Folha de S. Paulo

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