Todos viram chocados como a campanha petista deu uma guinada de 180 graus e passou a colocar o verde e amarelo, as cores do Brasil, em seu logo, apagando o vermelho e sumindo com Lula. Cara de pau é com essa gente mesmo. Um petista é aquele que não sente constrangimento algum em mentir, em dizer o oposto do que acabou de dizer, dependendo da  plateia.

A interpretação geral desse fenômeno foi a de que o partido se deu conta de que, para ter alguma chance de vitória, precisa posar de mais moderado e centro agora, afastando-se de Lula e do radicalismo dos vermelhos. Era a estratégia de construir um bloco do “centrão” contra o “extremismo” de Bolsonaro, que atrairia Ciro Gomes, FHC, Marina Silva e companhia.

Se era isso mesmo, fracassou. O PSDB manteve distância, ainda que a máscara que escondia seu próprio esquerdismo tenha caído de vez. Marina Silva foi pelo mesmo caminho, e sua Rede se declarou “neutra”, sendo que está vetado votar em Bolsonaro. Ciro Gomes, traído e massacrado pelo PT no primeiro turno, deu o troco, declarou “apoio crítico” e se mandou. Ainda assim, Haddad está lá, usando o verde e amarelo e longe de Lula. Por quê?

Merval Pereira, em sua coluna de hoje, trata a jogada de marketing como necessária para alguma chance de virada, ainda que bem remota:

No jargão dos institutos de pesquisa, quando os gráficos mostram um desenho que distancia dois competidores de maneira clara, diz-se que “abriu a boca do jacaré”. E quando ela abre, é difícil de ser fechada. O fato é que uma vitória de Haddad seria mudar em 15 dias tudo o que o eleitorado brasileiro fez no último domingo, quando varreu figuras tradicionais da política brasileira, apartidariamente, mas atingindo, inclusive, políticos do PT ou seus aliados mais explícitos, com uma ou outra exceção devido a peculiaridades da política local.

A situação é tão grave que o PT aceitou uma derrota simbólica de relevância, permitindo que Haddad apagasse de sua propaganda o rosto de Lula e, mais que isso, trocasse a cor vermelha da propaganda, pelo verde e amarelo típico da campanha de Bolsonaro.

É interessante notar que desde 2013, quando das manifestações populares difusas contra “tudo o que está aí”, e depois nas passeatas a favor do impeachment de Dilma, os manifestantes que usavam o verde e amarelo, geralmente com a camisa da seleção brasileira de futebol, eram ridiculamente acusados pelos petistas de serem “coxinhas” coniventes com a corrupção da CBF.

Agora, os cartazes do petismo que quer se esconder mostram moças e rapazes com a camisa da seleção, com a mão no peito em sinal de respeito, e olhando para o horizonte, dignos do realismo socialista do tempo de Stalin na União Soviética. E o desaparecimento da figura de Lula dos cartazes lembra muito o hábito stanilista de apagar das fotos os que caiam em desgraça no regime comunista, muito antes de aparecer o photoshop.

Faz sentido. Mas gostaria de propor uma tese alternativa. Ciro foi traído pelo PT e estava magoado, é verdade. Mas isso nunca impediu políticos, ainda mais de esquerda, de fazer alianças pelo poder. Logo, seu abandono e fuga para o exterior tem outro motivo: ele sabe que Haddad vai perder. O próprio PT sabe disso, no fundo. E por isso o verde e amarelo em vez do vermelho e Lula!

É mais uma estratégia para a derrota do que para a vitória. Sabendo que as chances são muito baixas, o PT se prepara para se afastar… de Haddad! O objetivo é preservar o próprio PT e Lula, não Haddad, que será queimado depois como o professor com cara de tucano que não era tão petista assim. Aí o PT se reorganiza como oposição a Bolsonaro, torcendo para ele errar muito, a mídia dá um tempo nos ataques ao partido, e a meta passa a ser 2022.

Lula usou o PT mas também foi usado: colar a imagem nele fazia sentido na disputa legislativa, pois o bandido preso é líder inconteste de um nicho do eleitorado. De fato, o PT conseguiu manter a maior bancada na Câmara com essa estratégia. Agora soltam Haddad aos leões, retiram o vermelho da sigla e escondem Lula, não para Haddad vencer, mas para perder sem levar junto a quadrilha toda. Faz sentido?

(Rodrigo Constantino /Gazeta do Povo)

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